Portal CREA-SP – Notícias – Novas tecnologias são desafio constante na CEEE

Da básica energia elétrica às novidades da automação e dos aplicativos



No dia em que foi feita a entrevista para esta reportagem — com o coordenador da Câmara Especializada de Engenharia Elétrica (CEEE), o Eng. Eletric. e Eng. Seg. Trab., Rui Adriano Alves —, uma das notícias que catalisavam as atenções no Brasil tinha como centro exatamente o setor elétrico. Era sexta-feira, 6 de novembro, e o país ainda assistia perplexo às agruras da população de Macapá e mais uma dúzia de municípios do Amapá que completavam o terceiro dia consecutivo sob os efeitos de um apagão na rede de energia elétrica. A causa: o incêndio de uma subestação redutora de tensão do sistema de abastecimento, provocado pela queda de um raio nas instalações. Quase 800 mil pessoas padeciam com a falta da eletricidade em seus lares, locais de trabalho, lojas e em ambientes públicos. Em decorrência foram afetados outros serviços públicos como os de fornecimento de água, telefonia e internet, ampliando o transtorno e os prejuízos.


“Costumamos dizer que essas coisas acontecem por falta de engenharia” comentou Alves. “Claro que lá o motivo do apagão foi um fenômeno natural, que não temos como evitar que aconteça. Mas, a prevenção a essas ocorrências e maneiras de evitar que causem tanto estrago estão ao alcance da administração. Quando a administração técnica pelo menos é realizada por um engenheiro habilitado, isso tende a não acontecer. A questão é uma pauta de engenharia, de investimento e de gestão pública”.


O risco: perdas materiais e humanas


O acontecimento, segundo o engenheiro, serve como mais um alerta para a necessidade de haver fiscalização e presença de responsáveis técnicos para evitar problemas dessa gravidade e que deixam a população à mercê da falta de serviços por tantos dias. Problemas semelhantes estiveram por trás de outras grandes tragédias ocorridas recentemente tendo como ponto de partida o mau estado de sistemas elétricos.


O incêndio do Museu Nacional, no Rio de Janeiro, que ardeu na noite de 2 de setembro de 2018, aconteceu por falhas básicas como fios desencapados e expostos. O resultado foi a destruição de 93% do patrimônio histórico e científico da instituição, uma perda que o mundo inteiro acompanhou e lamentou.


O descaso com a situação das instalações elétricas, além de graves prejuízos materiais, causou a perda de vidas humanas em outros dois casos recentes que ganharam as manchetes, ambos ocorridos também no Rio de Janeiro. No centro de treinamento do Flamengo Futebol Clube, na zona oeste da cidade, morreram 10 jovens jogadores da base do time no dia 8 de fevereiro de 2019, quando um problema num aparelho de ar-condicionado ateou fogo no alojamento. E, sete meses depois, mais 23 pessoas morreram no Hospital Badim, na zona norte carioca, em decorrência do fogo causado por um curto-circuito num gerador de energia situado no subsolo do prédio.


Em comum entre esses casos, além da origem dos incêndios ter sido alguma falha de manutenção de sistema elétrico, há o fato de que os locais dos sinistros não tinham um engenheiro eletricista responsável. “A nossa responsabilidade é muito grande”, afirma Alves. “Para proteger a sociedade, é necessário manter uma fiscalização firme e forte”, diz.


Área abrangente


No Crea-SP, a CEEE tem 54 conselheiros. Alves é representante da Associação de Engenheiros, Arquitetos e Agrônomos de Guarulhos, entidade que tem mais de 50 anos de existência. Entre os conselheiros da CEEE, como ocorre nas demais câmaras, há profissionais representando sindicatos de engenheiros, associações profissionais e universidades.


A área profissional coberta pela fiscalização da CEEE é bastante abrangente. Compreende, de acordo com sua habilitação específica, limitada à formação curricular, engenheiros que atuam com sistemas computacionais, sistemas de comunicação e telecomunicações, eletrotécnica (comercialização, geração, transmissão e distribuição de energia elétrica) e eletrônica (computação, microeletrônica, circuitos integrados, controle e automação industrial) e mais engenheiros biomédicos e tecnólogos de nível superior.


“O nosso desafio no Crea-SP, de fazer a fiscalização de todas essas áreas, é diário. É um processo complexo e há muito para ser feito, desde a Câmara dizendo o que é para fiscalizar até o trabalho do fiscal na ponta. E nunca estamos satisfeitos. A gente sempre busca uma maneira de melhorar a fiscalização”, explica.


Uma das complexidades é o fato de que há muitos leigos atuando na área. “Isso deixa a sociedade exposta”, ressalta o coordenador da CEEE. O trabalho da Câmara Especializada do Crea-SP é fiscalizar essa realidade e reduzir o grau de exposição a problemas como a falta de responsáveis técnicos, que estão na raiz de tragédias como as citadas no início deste texto. Mas o desafio é ainda maior, nota Alves, “porque as regras legais também estão em constante mudança e é preciso encontrar formas de adequar-se ao seu cumprimento”.


Universidades e técnicos


No campo das escolas de Engenharia, outro que é objeto da fiscalização do Crea-SP, Alves aponta o desafio da difusão do ensino a distância, o EaD. A função do Conselho é ceder atribuição ao profissional a partir do plano curricular do curso, autorizado por sua vez pelo Ministério da Educação. A maneira de lidar com essa nova situação está sendo encaminhada.


No Crea-SP, a CEEE, segundo seu coordenador, está decidindo junto com as Câmaras de Engenharia Civil e de Mecânica, que documentação passará a ser requisitada para as universidades que oferecem o EaD. “Temos de ter ferramentas para julgar se o curso é bom ou não, se o profissional lá formado deve merecer todas as atribuições pedidas ou que atribuições ele pode receber. Há cursos em EaD que são bons e há os presenciais que são ruins. Não vamos pré-julgar, até porque a pandemia, impondo as atividades remotas, derrubou o preconceito, de quem tinha, contra o EaD”, diz.


Diversas universidades já estão dando cursos de engenharia 100% EaD em São Paulo e nos demais estados do país. Esse tipo de organização coloca mais motivos para a cautela. O coordenador dá o exemplo de um curso com um polo em Rondônia cuja matriz é em Batatais, no interior paulista. “Não temos como saber ainda que atribuições conceder aos formados de lá. O objetivo é chegar a algo que seja justo com todos os lados, mas sempre no sentido de proteger a sociedade”, diz.


Se o ensino superior requer atenção, existe hoje também uma preocupação com a movimentação que têm tido as entidades dos técnicos de nível médio. Na área coberta pela CEEE, há uma discussão sobre a ampliação das atribuições dos técnicos em Eletrotécnica trazida pela Resolução nº 074 que o Conselho Federal dos Técnicos Industriais baixou em julho de 2019.


Outra questão que está sendo tratada diz respeito à autorização da Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) para que as empresas de Serviço de Comunicação e Multimídia possam ter somente um técnico como responsável pelo serviço. “Estamos estudando ter uma conversa com a Anatel para tentar rever algumas coisas, para que os responsáveis técnicos em alguns casos — não em todos — devam ser profissionais de nível superior, engenheiros e tecnólogos”, aponta.


Tecnologias: cada dia uma novidade


Além de sua abrangência, a Engenharia Elétrica é uma das mais dinâmicas e está em contínua expansão por estar ligada a grande parte do incessante desenvolvimento tecnológico. “Cada dia é uma coisa nova, há um celular novo. Agora vem o 5G, a quinta geração da telefonia celular. Ficando só nesse campo, imagine como seriam piores as coisas agora na pandemia, sem as telecomunicações que nos permitem o trabalho remoto e a telemedicina”, ressalta. E adicione-se a isso a internet das coisas, a robótica, a manufatura 4.0, a renovação constante dos aparelhos eletroeletrônicos, os sistemas que permitem o funcionamento de todo o complexo de computação, o armazenamento de dados, a segurança eletrônica etc. Quase tudo que surge de novo, ao mesmo tempo, depende de energia elétrica.


Alves foi professor e diz que costumava brincar com os alunos dizendo: “A Elétrica é a mais fascinante das engenharias, mas também é a mais difícil. Você abre uma tomada e não sabe se ali há energia ou não. Todo mundo acha que está tudo bem se a lâmpada está acesa. Mas há muita coisa por trás. Os últimos 10 inventos, se for verificar, estão todos conectados à rede elétrica, têm eletrônica”, diz.


Tudo isso, representa mais trabalho para a CEEE: definir como fiscalizar as novidades, as tecnologias que estão chegando e suas múltiplas repercussões de diversos modos. A Câmara recebe constantemente novas demandas de discussão. O coordenador dá exemplos: “A empresa que montou um aplicativo basicamente de entrega de comida precisa ter um engenheiro como responsável técnico? Mas, e se for um aplicativo para a entrega de uma medicação, ou de uma vacina, precisa?”.


“São questões novas que chegam à Câmara e são discutidas aqui. Há muitas opiniões diferentes, porque temos profissionais de diferentes áreas, com pontos de vista diferentes. Isso é importante para entender e enfrentar o que é novo”, diz o engenheiro Alves. “Para proteger a sociedade, a gente não pode ficar para trás.”



Produzido por CDI Comunicação

Supervisão: Departamento de Comunicação do Crea-SP / SUPGES


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